Contos
Milonga Triste Para Adão Latorre
Na mangueira de pedra, trezentos de nós à espera
do sumário julgamento. Eu, cansado de tanta correria e
de tanta luta, sentei num canto, aguardando não sei bem
o quê.
Os boatos eram outra cerca que nos cingia o peito. Falavam que
talvez alguns de nós viessem a ser degolados, como resposta
à morte dos sobrinhos do Tavares. Não vou mentir.
Bateu um medo, sim senhor. Mas um medo diluído por muitas
e muitas cabeças. Por certo não nos matariam a todos.
Quem sabe, para causar impressão forte, até degolassem
meia dúzia de nós, isso sim. Para impressionar e
dar o troco.
As coisas iriam terminar bem. Nos entregamos com garantia de
vida, ao comando do nosso Coronel Maneco Pedroso, um taura beirando
os trinta e picos, criatura de alma larga e cabeça pensante.
No ar da fronte, em nós todos um misto de tristeza e alívio.
Nesses momentos de peso e silêncio, a gente se lembra das
coisas que tem. O que tenho pode ser pouco, mas nunca me faltou
comida porque força não me faltou no braço.
Tenho um cavalo que me acompanha de há muito e quase me
adivinha as vontades. E tenho muita lembrança ajuntada
nestes mais de cinqüenta anos de vida bem vivida. Mas agora
estou aqui, sentado a um canto, apoiando os costados na pedra,
esperando não sei bem o quê. Quem sabe alguma que
outra ameaça, alguns dez ou doze de nós pagando
com a vida para selar a vitória deles. Não é
difícil entender a coisa toda. O respeito há que
ficar marcado. Na minha escassa sabença de homem criado
no campo, que não aqueceu banco de colégio, o tal
respeito é afilhado do medo. Sim senhor. No fundo, é
tudo muito parecido. E medo se forja é no sangue, não
com pose nem falação bonita.
No meu caso, a história começou num mate desses
de se tomar enquanto a sombra da tarde se alonga até bater
os costados no horizonte. Foi quando eles me apareceram. Dois
homens de boa estampa, cara limpa e vestidos a preceito. Logo
se via que era gente importante, gente de algum estudo. Aprendi
bastante naquela conversa. Soube da tal rusga dos republicanos
e federalistas, coisa que primeiro ouvi do meu velho pai, quando
me contava de suas façanhas de outros tempos. Pra ser sincero,
nunca entendi direito essa diferença. Gostava era de ouvir
o pai contando coisas da guerra. Era guri, e guri gosta de ouvir
sobre tiro e talho de adaga. Mas a parte que me ficou sombreada,
como até hoje, sim senhor, foi essa tal diferença.
Sei que os republicanos são gente do governo. E governo
é governo, merece respeito. Por isso foi fácil escolher
o lado. Sou republicano por que sou pelo governo, sou pela justeza
e pela ordem das coisas. Imagino com satisfação
que daqui há um par de anos vou estar mateando na mesma
sombra e haverá de estar ali algum neto de olho arregalado
a me perguntar das degolas, da revolução de noventa
e três e deste cercado de pedra.
Até agora, não matei ninguém. Em compensação,
ninguém me matou. Há este empate na minha guerra
particular por enquanto. Nem culo, nem suerte. Agora estou aqui,
sentado e esperando pelos fatos. Dos que estão comigo,
conheço uns poucos, mas nenhum deles posso considerar,
por assim dizer, um amigo, desses de desencilhar o cavalo na visita.
Sei que é gente buena, gente do governo como eu, pronta
para ajudar na ordenação das coisas. Um desses meus
conhecidos se agachou ao meu lado, me tapeou o ombro e disse que
não era pra eu me achicar. Mal respondi ao sujeito. Poderia
ter dito que não estava com medo, que estava era cansado
e rejuntando forças. Mas não. Não estava
pra conversa fiada. Olhei ao redor e imaginei que talvez uns quinze
ou vinte de nós pudessem passar por alguma provação.
Ainda assim, a maior chance era de escapar com vida e sair contando
vantagem. Alguns de nós riam baixinho, não sei de
quê. Outros engoliam um choro seco, escondido no canto do
olho.
Os inimigos nos rodeavam, do lado de fora do cercado. Olhei
as pedras, graúdas e pesadas. Imaginei quanto suor não
teria escorrido por aqueles sulcos, do corpo de negros cansados
sem reclamar de nada, agüentando com um silêncio remoído
por dentro. Na minha frente, também sentado, um negrote
novo. Pensei, não sei porque cargas d'água, que
talvez o pai dele pudesse ter trabalhado ali, naquele mangueirão,
no pedra sobre pedra que agora servia de brete ao próprio
filho. E os inimigos nos rondavam, e às vezes diziam coisas
pra nos por medo e se divertiam com essas ameaças e gritedos.
Gente de pouco tino, gente de anarquia. Eu ali, no comportamento
que mais convém a um prisioneiro. Inclusive essa tal palavra
me ficou passeando pela idéia depois da batalha perdida,
das armas na terra e da vergonheira estampada. Um capitão
deles disse que deviam ser mais de trezentos os prisioneiros.
De cima das pedras, um sujeito começou a mijar sobre
nós. Riu muito e um outro deu-lhe um empurrão, disse
que isso não era coisa que se fizesse, e quase se peitaram.
Ficaram se estranhando, mas briga não saiu e a situação
se resolveu pouco depois com um ou dois tragos. E eu firme no
meu posto, querendo pensar na vida e ordenar meu tino. Na pior
das hipóteses, uns vinte ou trinta de nós poderiam
se ver feio de vida, experimentando o tironaço da gravata
colorada a separar o couro do pescoço. No máximo
uns quarenta, pra causar grande impacto. Cadeia pra todos não
haveria, ainda mais pra gente do governo como nós.
Um silêncio esquisito nos caiu como pedra quando vimos
a cara feia do negro Adão Latorre a nos mirar de cima.
Ficou um pouco ali, nos olhando agudo e manso, a buscar quem sabe
algum conhecido. Ar sereno, sorriso miúdo espremido na
boca, tigre com fome encarando a presa. Alguns de nós o
buscavam no olho, mas a maioria não. Não era uma
coisa interessante o risco de cair em desgraça com o negro.
Eu, alcei o olho e desviei em seguida. Só não entendi
bem por qual razão me levantei logo. Não sei o motivo,
mas sei que não queria ser visto sentado no chão.
Ficamos meio esperando que ele dissesse alguma coisa, que trouxesse
as novidades decididas pelos grandes. Talvez estivesse escolhendo,
dentre nós, uns cinqüenta que pagariam com a vida
a morte dos Tavares. No entusiasmo, quem sabe uns setenta para
exercitar a conhecida manobra horizontal da adaga uruguaia de
bom corte. Desceu das pedras devagar, medindo passo por passo,
com a calma de quem não tem relógio nem patrão.
Aquele riso dele me deixou sestroso. O que estaria pensando o
negro? Tentei apurar a orelha, cheguei a identificar a sua fala
acastelhanada mas não pude perceber o que dizia, por causa
dos cochichos que se formaram logo ao meu lado. Cruzando a frente
da mangueira, pude ver o negro carregando duas facas e uma chaira.
Não posso negar, não senhor, aquela foi uma hora
difícil. Vi o tranco satisfeito dele, o olho atravessado
na diagonal das facas. Um pressentimento esquisito de que, quem
sabe, a coisa fosse mesmo o pescoço de uns oitenta de nós.
Quem sabe até mesmo uns cem, pra que os outros saíssem
alardeando o pavor que é se meter em matanças desse
tipo e fossem cuidar das vacas e da plantação. Decerto
seríamos libertados com a condição de não
dizer nada a ninguém do que havíamos presenciado
ali. Esse era o melhor jeito pra que todos ficassem sabendo da
coisa, com todos os exageros que convém às duas
partes. Era pra que assim se fizesse, a lei da guerra é
a lei do sangue. Sim senhor. Isso todo mundo sabia, ninguém
ali era santo. Senti a chance se apequenando, a emagrecer como
cusco sem dono em tempos de seca. Medo, sim senhor. Mas desespero
não. Morte por morte, um dia a gente morre mesmo. Sim senhor,
disso não há vivente que escape. E já que
se morre, que seja então com um bom quando e porquê.
Numa dessas, abriram o mangueirão. Dois homens a cavalo
se postaram na frente, um deles ergueu o laço e arremessou
contra nós, os prisioneiros. Foi laçado um, que
não era dos meus conhecidos, e arrastado devagar, com uma
certa cerimônia. Ele, quieto. Não deu nem um pio
nem um ai. Uns poucos de nós foram buscando o fundo do
mangueirão despacito, como quem não quer nada. Fiquei
no ponto onde me achava, dali a visão era boa do que estava
por vir e não me deixava muito a mercê do laço.
Pude ver o negro Adão fazer um sinal de apura com isso
para o do cavalo, que foi a trote até o palanque. Senti
meu coração disparando, como se fosse eu lá,
posto de joelhos, com as mãos atadas pra trás com
uma soga. O negro afiando as facas e mirando o ajoelhado. Deixou
uma delas por cima dos arreios e se aproximou rindo e mirando.
Estás pronto para morrer, hijo? O prisioneiro não
respondeu. Devia estar rezando. Eu, pelo menos, tentava. E isso
que não sou muito de igreja. Mas, no apuro, fiz até
uma promessa, de que se me escapasse vivo, aprenderia de novo
aquelas rezas que minha velha mãe tentou me ensinar, muito
tempo atrás. Quando ergui a fronte, dei com o negro Adão
agarrando pelos cabelos um infeliz ajoelhado, forçando
a cabeça do bicho pra trás. O joelho do negro nas
costas do homem, o talho de orelha a orelha pela frente, o sangue
aos jorros, um grito pela metade. Grito molhado pela sangueira,
uma coisa muito feia de se ver e de se ouvir. Sim senhor. Não
há como haver esquecido. Caiu ali mesmo, a cara direto
no chão, semente pesada a se enterrar ligeira no barro
avermelhado. Latorre passou a lâmina bem devagar no tirador
de couro e olhou-a, satisfeito. Faquita buena, esta. Foi o que
pude ouvir dele, enquanto os de a cavalo arrastavam o corpo até
uma lagoa, a uns vinte metros dali.
Poucos de nós atinaram contar, como eu. Senti que seria
importante saber o tamanho certo da maldade, pra contar depois
com a justeza dos números quantos de nós morreriam
ali. Mas não nego que fui me apavorando pouco a pouco.
Acho que não é vergonha admitir isso, não
senhor. Só quem viu de perto, só quem sentiu o cheiro
vermelho de tanto sangue avalia o que seja. Nem todos sabiam morrer.
Alguns imploravam pela vida, alegavam ter família e coisas
assim. E o negro Adão dizia que feio meu hijo, ser covarde
desse jeito não presta, não é assim que se
morre. Outros chegavam lá e xingavam feio o negro, e morriam
do mesmo jeito. Acho que alguns tentavam um olhar de piedade,
mas não sei não senhor, porque não vi. Logo
em seguida as degolações se aligeiraram, Latorre
já estava com prática e os de a cavalo já
ganhavam ciência no carregar do infeliz. De tempo em tempo,
um intervalo, um trago largo e a chaira fazendo cruz de ida e
volta nas adagas, que trabalhavam em rodízio de uns dez
serviços para cada uma.
Mesmo resolvido a contar, perdi meus números ao redor
dos noventa e picos. Nessa altura, eu só pensava se sairia
vivo ou não. Minhas vistas ardiam e pesavam ante as honrarias
da gravata colorada. Não vou negar, não senhor,
já disse antes. Passa pela cabeça da gente um monte
de coisa numa hora dessa. Uma vontade de fazer fiasco, de sair
correndo como guri assustado. Mas guri é guri e homem é
homem. Hora de morrer é hora de morrer e está feito.
A partir de uma certa altura, poucos de nós aceitavam ir
arrastados pelo laço, feito animal. O primeiro de nós
que disse homem morre é de pé, foi caminhando até
o negro e ganhou com isso o direito de erguer o pescoço
na frente dele. Outros o seguiram, e parece que os olhos do negro
se enchiam de satisfação com atos desse tipo. Alguns
poucos se desesperavam numa inútil tentativa de fuga, eram
perseguidos com prazer pelos de a cavalo, vinham arrastados de
volta, ficavam um tempo assistindo de perto a morte de uma meia
dúzia e só depois eram degolados, sem pressa nenhuma.
Isso enlouquecia até o olho mais afeito a matanças.
Morriam de todo jeito, e sofrendo esse bocadito a mais. Diz a
lenda que teria escapado um que outro de nós, uns poucos
que olharam o negro de um jeito que tocou nos moles do coração
dele. Mas isso eu não sei, não senhor. Só
posso falar o que vi, que assim não periga a verdade. E
o que vi foi até a minha hora chegar.
Pois que me fui, caminhando aos trancos, como quem se despede,
procurando sentir bem a terra que me dava base aos pés.
Pensei comigo se valia a pena gritar alguma coisa pro negro. Olhei
pra o lado e pude ver a montoeira de corpos na água vermelha
da lagoa. Nunca vi coisa igual, não senhor. Era mesmo de
se perder a conta. Quanta judiaria. Olhei na fundeza dos olhos
dele. Resolvi não dizer nada. Não dizer degola negro
filho da puta, assassino, te diverte desgraçado. Fiquei
quieto, afoguei o grito e pude imaginar meu sangue correndo pela
mão suja do negro. Lembro que ergui a cabeça e o
pescoço ficou ali, pedindo o serviço. O negro não
me olhou de novo. Já cansado, o braço endurecido
de tanta prestança. Só lembro mesmo dos meus olhos
se inchando, como a querer saltar da cara, e uma sensação
de calor me enchendo a cabeça e um frio escorrendo e se
espalhando pelo corpo. Depois uma enorme tontura e o azul lá
de cima escurecendo ligeiro.