Oração dos que sofrem de medo

LIBERATO VIEIRA DA CUNHA, 05/03/2002

Da sombra incerta que nos ronda, livrai-nos, Senhor.
Do vulto que nos espreita, um brilho de aço na mão, livrai-nos,   Senhor.
Do cano frio da arma, dos dedos trêmulos no gatilho, livrai-nos,   Senhor.
Das trevas dessa antecipação do túmulo que é a cela acanhada e   funda do seqüestro, livrai-nos, Senhor.
Do invasor que rompe as grades de nosso voluntário cárcere e nos   arranca do sonho para arrojar-nos no pesadelo, livrai-nos, Senhor.
Do assaltante oculto que nos embarga o caminho de troncos e de   pedras, livrai-nos, Senhor.
Do foragido errante, a quem não deram ofício nem emenda,
  livrai-nos, Senhor.
Do salteador homicida, clandestino passageiro do ônibus, livrai-nos,   Senhor.
Do que devia guardar-nos, mas não se guarda de si mesmo, livrai-
  nos, Senhor.
Do violador, escravo e cúmplice de sua torpeza, livrai-nos, Senhor.
Do transtornado pela droga, do refém de sua própria, alerta
  inconsciência, livrai-nos, Senhor.
Do que nos detém no semáforo, do que surge intruso no parque de
  estacionamento, do que emerge da escuridão da garagem, livrai-
  nos, Senhor.
Do que semeia ao acaso balas perdidas, livrai-nos, Senhor.
Dos celerados, dos assassinos, dos que cultuam a violência e a   crueldade e o ódio, livrai-nos, Senhor.
E dai, Senhor, infância a quem a perdeu;
e pão a quem padece de fome;
e água aos sedentos;
e amor aos que jamais dele provaram;
e um lar aos enjeitados;
e esperança aos deserdados;
e fé aos que penam de dúvida;
e reparação aos injustiçados;
e um norte aos extraviados;
e alívio aos enfermos;
e consolação aos angustiados;
e lenimento aos feridos na carne;
e conforto aos atingidos na alma;
para que o mundo seja não o Jardim do Éden que talvez não   mereçamos; mas para que se converta, Senhor, no sereno abrigo   de criaturas que se ousaram crer concebidas à Vossa imagem e   semelhança.
Amém.

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