De repente e sem aviso

LIBERATO VIEIRA DA CUNHA, 09/07/2002

Esses tempos fui convidado a uma festa de aniversário na Bela Vista. Ao ouvir o endereço, um íntimo sonar me pôs vagamente inquieto, mas não lhe dei importância, nem havia como: era uma sexta-feira, sinônimo de apocalipse nas Redações de todos os jornais do mundo.

Quando, bem mais tarde, o táxi me deixou frente a uma mansão como hoje há poucas, me bateu de imediato um intruso desassossego. Que é isso, cara? Estás só cansado, refleti. E tratei de ser um bom conviva, o que não era difícil, pois as pessoas se mostravam cordiais e os secos e molhados se revelaram soberbos.

Fazia frio, mas a casa dispunha de calefação, abrigava até uma lareira no salão em que foram servidos sobremesas e licores. E aí aconteceu de novo. Contemplando as chamas, os lustres, a porta envidraçada que levava a uma quadra de tênis deserta, me surpreendi invadido por uma angústia sem nome e sem razão.

Dei jeito de reagir. Um par de olhos claros na poltrona ao lado descobria significados ocultos em um de meus livros e decidi render-me à sua sutil, talvez sábia argumentação.

E eis que, de repente e sem aviso, me revi naquele mesmíssimo salão, aos 11 anos de idade, no mais trágico dos dias de minha vida. Adultos falavam em voz baixa, alguns me observavam, consternados, uma desconhecida não escondia o pranto. A cena me pareceu tão real que estremeci.

Sei que todos os que me lêem neste instante já viveram dias péssimos. A mim, no entanto, por um descuido dos arcanjos, coube um dia atormentador, terrível, que durou umas 96 horas.

Mas creio que fui na época um guri valente, consolador pensamento a bordo do qual voltei para o futuro.

A dona dos olhos claros me perguntava agora, apreensiva:

- O que há com você? Está tão pálido.

- Não há nada. Sobrevivi - disse sorrindo.

E ante seu ar intrigado, emendei:

- O que você achou mesmo de estranho nesse livro?

- O menino. Tem sempre um menino nos seus livros

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