Os vivos e os mortos

LIBERATO VIEIRA DA CUNHA, 06/08/2002

Leio que em Cachoeira há pessoas de bem dispostas a devolver à Igreja Matriz, hoje promovida a Catedral, o seu antigo esplendor. Querem com isso corrigir um brutal erro histórico: a desastrada reforma que aniquilou seu admirável interior, que era, seguramente, um dos mais belos do Brasil.

Conheci-o desde que me tenho por gente. Fascinavam-me aqueles altares de um barroco tardio. Provocavam-me a fantasia aquelas altas sacadas que davam para lugar nenhum, ou quem sabe apenas para sombrios túneis onde jaziam os emparedados.

Mais do que tudo, me atraíam as imagens, como a de uma palidíssima Senhora, cuja impressionante máscara de dor por vezes me revisita em sonho; ou a de um Senhor vergado ao peso da insânia dos homens e que, contam, levado um dia em procissão pelas ruas da cidade, salvou-a de terrível peste.

Vitrais, anjos soprando mudos clarins, uma Virgem Menina incrivelmente real no altar-mor, o aroma de incenso mesclado à música do coro, santos ocultos em roxo na Semana da Paixão, a memória de gênios anônimos que haviam talhado cada coluna e estátua nas névoas finais do mil e setecentos - assim era a Matriz de minha terra.

E aí sucedeu uma tragédia. Para ganharem uns palmos de espaço a mais, golpearam de morte sua alma. Por terra vieram paredes e capelas, lustres e murais, banidos foram a palidíssima Senhora, o opresso Senhor, a Virgem Menina. Trocaram tudo por uma vulgar, modernosa redecoração, que o escritor Paulo de Gouvêa, numa crônica magistral, chamou de atentado aos vivos e aos mortos.

Muito depois voltei lá e perguntei ao vigário de plantão onde estavam a Senhora, o Senhor, a Virgem Menina, centenárias obras de artistas das Missões agora rendidas por gessos banais, desses fabricados em série. O cura me levou à sacristia, decerto intrigado com tamanho interesse por velharias, remexeu nuns paramentos em desordem e dali emergiram eles, contemplando-me em nu espanto.

Desde então evito ir à Matriz. Para ser franco, conservo fundadas dúvidas de que, mesmo com a ajuda de fotos ancestrais ou recentíssimas técnicas de informática, seja possível restaurar sua magia e seu mistério.

Mas me sentirei contente se a Menina, o Senhor, a Senhora a seus altares tornarem. Pois não há gesso que valha seu lavor, sua arte e sua glória.

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