UM HÓSPEDE NA SACADA
Liberato Vieira da Cunha
Editora Sulina, 1997
Se o conto é gênero universal, a crônica
é bem brasileira, e dominar os dois pressupõe
mais do que talento. Liberato Vieira da Cunha cristalizou
seu nome no veio mais valioso da imprensa local, ali onde
a crônica, texto breve, direto, de fundo dialogístico,
se fixou como um cotidiano encontro fraternal e mágico.
Da crônica ao conto foi um passo, só na aparência
pequeno. Mais tarde Liberato revelaria um fôlego inimaginável
com o caudaloso romance As torrentes de Santa Clara (mais
de 800 páginas). Mas, afinal, que tipo de cronista
se revela o autor de Um hóspede na sacada? E que papo
é esse de contista?
Pois a verdade é que ambos se confundem, somando o
lirismo á Rubem Braga do primeiro com um Tchecov adaptado
ao clima temperado do segundo. Em suma: um apaixonado e um
criador de atmosferas; um refinado observador de mundos quase
secretos. Quase.
Para quem imaginar um indiscutível predomínio
da crônica sobre o conto, surpresa: 14 contos e 13 crônicas
compõem o total dos textos de onde o escritor emite
uma permanente lição de epifânica simplicidade.
Através da transparência que recobre seres e
eventos, Liberato realiza sua visita inesperada, aliando a
sutileza de um voyeur nada indiscreto com a transgressão
de um artista que busca fixar vidas submersas sem apelar para
a vulgaridade da violência. No universo diante da sacada
do contista/cronista a força que brota não grita,
não impõe, não apavora. A sua é
uma lição lenta e consistente. Temas essenciais
como o afeto, o medo, o desejo, a ambição, a
memória e a saudade mostram sua face entre doce e áspera.
> acesse
o site da editora