O HOMEM QUE COLICIONAVA MANHÃS
Liberato Vieira da Cunha
Objetiva, 2004
Críticas
Heróis banais
Luiz Antonio de Assis Brasil
Homens
comuns, no passado, nunca seduziram os artistas a representá-los.
Nas epopéias, tanto as antigas quanto as modernas (aqui penso
em Os Lusíadas), prepondera o herói, o qual, com a
força dramática de sua personalidade, transforma seu tempo
e pratica atos arrasadores. A partir da revolução burguesa
o homem trivial assume o protagonismo. Aaron Copland compõe
a sua célebre Fanfarra para um homem comum, e Picasso
sabe, na Guernica, representar aquele pobre povo massacrado.
A arquitetura equipa-se para atender às necessidades habitacionais
das famílias, e o teatro e o cinema têm, desde o seu início,
percorrido os caminhos do dia-a-dia.
A estética do prosaic ganha relevo maior, contudo,
na literatura. Aí podemos evocar o Werther, o Pai Goriot,
o Quincas Borba, o Paulo Honório, o Naziazeno Barbosa e um
sem-número de outras personagens nas quais reconhecemos alguém
igual a nós. A questão literária, entretanto, a paradoxal
questão, é: como representar um homem comum e, ao mesmo tempo,
dar-lhe estrutura psicológica suficiente para pô-lo de pé?
Em suma: como tornar forte a sua fraqueza? Para o escritor,
isso é andar sobre o fio da navalha.
Liberato Vieira da Cunha aceitou o desafio
em O Homem que Colecionava Manhãs (Objetiva, 2004).
Este não é apenas é seu melhor romance, como é seu melhor
texto dos tantos que pratica. Há, nesse romance, a intenção
de trazer à sensibilidade do leitor as vicissitudes de Alberto
Lins da Nave (ótimo nome!), alguém que nada mais deseja da
vida senão vivê-la. Apegado a um cargo burocrático subalterno,
vivendo sozinho por timidez e azares, escreve um diário. Para
complementar seu miserável ordenado, compõe caras por encomenda.
O leitor pode pensar: mas isso não é inédito. Não o é, como
não são inéditos os triângulos amorosos desde Mme. Bovary,
passando por Ana Karênina e O Primo Basílio. A
questão não é o que contar, mas o como contar.
E Liberato Vieira da Cunha sai-se muito bem nessa empreitada.
A ação passa-se em Porto Alegre no ano de 1945,
de maio a dezembro. Nada mais rotineira do que a capital dos
pampas naquelas eras. Cidade semi-interiorana, recém começava
a ter seus arranha-céus. Bondes trafegavam pelas ruas sonolentas.
Os botecos e os bordéis, que tanto atraíam Alberto Lins da
Nave, eram instituições também de convívio. 1945: o País estava
em vias de redemocratizar-se. Erico Verissimo publicaria,
no ano seguinte, A Volta do Gato Preto. Eis o espaço
e o tempo por onde o protagonista perambula suas insônias,
seus desejos e sua assumida insignificância. Ele é apenas
Alberto, ocasionalmente usando o codinome de Gregory Peck.
Nome de herói tem eu chefe, Jasão.
Idealista, almeja o amor impossível, materializado
(ou imaterializado) em algumas mulheres de existência na linha
da irrealidade, como certa deusa do olhar azul diáfano.
Nessa busca há semelhança com a perseguição patética da senhora
de vestido xadrez, posta em prática por Artur Corvelo,
personagem de A Capital de Eça. Os resultados são completamente
diversos, e o de Eça, hilariante.
Alberto Lins da Nave vive numa pensão gerida
por Dona Tilde, e nada mais anti-romântico do que isso. Tem
seu passado de glórias, por certo. Nascera num berço de elite;
seu pai era médico respeitado em Alhandra, mas as contingências
da vida fizeram com que a honra e os bens da família escoassem
pelo ralo. Não é, contudo, um homem isento de certa vida interior.
Por vezes tem rompantes de lucidez e de originalidade simbólica,
como na compra da máquina de escrever que pertencera à sua
madrasta, a demente e originalíssima Ariana. Vive, como qualquer
pesoa, atascado em vagos remorsos: "Me escondi perto do batistério,
fiquei um tempão ali. Por que ajo assim, se minha ficha está
limpa? De onde vêm esses pavores súbitos, essas culpas sem
nome?"
O texto é límpido, simples e essencial, evocando
o Machado de Memorial de Aires. Não há desabusadas
aventuras lingüísticas ou gráficas; em contrapartida, há ganho
em força ficcional e verossimilhança. Liberato Vieira da Cunha
apresenta-se como autor maduro que não cede à tentação dos
truques, dos estéreis experimentalismos, das pseudo-fragmentações
que mascaram a ausência de fabulação.
Citei várias aproximações literárias deste
romance com outros da literatura nacional e internacional.
É importante sublinhar que, desse conjunto de influências
e diálogos intertextuais, resulta uma narrativa única e exclusiva.
Todo bom escritor, mais cedo ou mais tarde, descobre-se como
resultado da tradição, mas, ao mesmo tempo, sabe construir
seu próprio falar. E aqui, o caso é exemplo cbal.
Como se trata de um diário, o leitor pode incidir
em dois preconceitos: pensar que se trata de algo intimista
e sem história, pecados encontráveis no gênero. Terá uma surpresa:
o intimismo é perfeitamente natural e jamais sufoca; e existe
história, sim senhores, e por isso é um romance. Há uma história
que atrai pela expectativa dos episódios seguintes. E essa
história é costurada de modo impecável: não há pontas soltas.
Quando pensamos que o autor esqueceu-se de tal ou qual fato
ou personagem, lá eles retornam e têm seu destino. Disso resulta
a sensação de um texto acabado com primor. O que mais podemos
esperar mais de um livro?
A personagem, assim embalada em roupagem a
condizer, pode apresentar-se adequadamente à leitura. Sendo
um homem comum, e tendo esse caráter narrado pela mão competente,
ele sai engrandecido. O Homem que Colecionava Manhãs dá-lhe
a dignidade da obra de arte, uma distinção que a vida não
lhe deu. E é essa dignidade que jutifica suas ações.
Alberto Lins da Nave é um herói na medida em
que nós, os quotidianos heróis do banal, identificamo-nos
com ele em seus ridículos, suas hesitações, suas pequenas
mentiras, suas dúvidas, suas vilezas. E, de sobra, ganhamos
em literatura.