O HOMEM QUE COLICIONAVA MANHÃS
Liberato Vieira da Cunha
Objetiva, 2004
Críticas
Um poema da vida real
Eron Duarte Fagundes
Um
homem senta diante duma janela e lança sua teleobjetiva para
o mundo. O dia-a-dia de seu universo está no olhar deste homem
que guia o olhar do leitor por uma velha cidade da província.
Construído como um diário íntimo do protagonista, O homem
que colecionava manhãs (2004), o novo romance do escritor
gaúcho Liberato Vieira da Cunha, está em busca do ritmo interior
de seu protagonista, assemelhando-se neste esforço à estrutura
de livros como Memorial de Aires (1908), de Machado
de Assis, e O amanuense Belmiro (1936), de Cyro dos
Anjos.
Quem conhece a generosidade da visão de mundo
de Liberato em suas crônicas semanais para o jornal, terá,
ao deparar com sua narrativa longa, uma confirmação e uma
surpresa. Confirma-se aqui o escritor pleno de sensibilidade
para enxergar o cotidiano, ficcionista que sabe valer-se das
sintaxes da língua para expressar os diversos sentimentos
humanos que pululam por aí; a surpresa vem de que, despindo-se
dos pudores lingüísticos exigidos pela moral jornalística,
Liberato torna o erotismo que lateja em suas crônicas cheias
de damas belas e misteriosas mais carnal e avassalador. Se
a menina de cabaré Shirley e a simplória Gisa representam
aspectos mais triviais da persona feminina, a figura de Victoria,
conquanto materializada em carne e sexo, tem a transfiguração
das senhoras esquivas e perplexas que de quando em quando
cruzam pela imaginação do cronista Liberato.
"E fez esse reconhecimento com seus lábios,
suavemente, sem pressa, e sem pressa me percorriam suas mãos
e deslizava por mim sua pele. E ora sua boca que buscava meu
pênis e ora era toda ela que me buscava, a amazona que me
galgava. E logo era eu que imergia em sua carne atravessando
cada porta e rompendo cada limite da entrega. E por todos
os meios e modos que jamais foram oncebidos para que um homem
se desse a uma mulher e uma mulher possuísse um homem, fomos
tão completamente um do outro que o mundo transformou-se numa
constelação de deleite e gozo e nela orbitamos como dois planetas
gêmeos e indivisos desde a aurora da Criação."
E aduz no dia seguinte:
"Tudo isso foi ontem, pois amanhecemos juntos.
Tudo isso foi há séculos, pois Victoria partiu."
Um pouco da realidade, um pouco da poesia é
o que informa o jeito ficcional de Liberato. O escritor cearense
José de Alencar, num contexto bastante diverso, dizia do gênero
romance, "como eu agora o admirava, poema da vida real" (Como
e por que sou romancista, depoimento publicado postumamente
em 1893 por seu filho Mário Alencar). A Liberato, dentro duma
perspectiva atual, cabe o epíteto de poeta da vida real como
romancista: não me lembra que algum outro ficcionista brasileiro
de hoje saiba varrer o cotidiano de gestos e sentimentos elevand-o
da trivialidade para a poesia, para o lirismo, de maneira
tão transparente, tão objetiva.
Sem embargo de apresentar a visão lírica de
um homem lançada para o mundo, O homem que colecionava
manhãs, cujas notas de diário vão de 25 de maio de 1945
a 6 de dezembro do dito ano, não deixa de ser uma precisa
e apaixonante crônica da Porto Alegre dos anos 40, sobrando
inclusive uma anotação política para a queda do presidente
Getúlio Vargas em 29 de outubro de 1945.
Uma das curiosidades do romance é que o protagonista
tem por ofício escrever cartas encomendadas por pessoas que
não sabem alinhavar frases no papel. Muitos dos envolvimentos
da personagem, movendo o drama romanesco como num jogo, vem
desta atividade de Alberto Lins da Nave, a personagem-narradora
cujo diário é convertido em romance. De certa forma, compor
orações no lugar daqueles que não sabem escrever, pode ser
tido por uma metáfora da própria função do romancista: não
estaria o romancista escrevend no lugar do leitor, incapaz
de redigir romances? o melhor romancista não seria aquele
que pega da pena como se o próprio leitor dela estivesse usando?
O recurso narrativo da personagem que faz textos
para outrem pode não ser exclusividade de Liberato Vieira
da Cunha; mas é muito pessoal o jeito com que o autor usa
o método para entrelaçar os liames dramáticos e produzir o
que me parece mais importante neste romance: a capacidade
de criar um ritmo íntimo de linguagem e narração que vai revelar
como se comporta por dentro uma personagem. Neste aspecto
o capítulo final é deslumbrante.
(*) ERON DUARTE FAGUNDES é crítico, autor de "Uma Vida
nos Cinemas"