CENA DE AMOR
in A MULHER DE VIOLETA
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA
Eles vinham se encontrando em restaurantes discretos, em praças de bairros afastados e uma vez até mesmo na penumbra de uma sessão de cinema, muito próximos e ciciantes. O ex-marido dela, que era um sujeito bastante zangado, não podia saber que continuavam a se ver desse modo e o temor de serem surpreendidos nunca deixava de fazer-lhes companhia. Uma tarde, quando ele a levou até o carro para um beijo de despedida, seu medo foi mais forte, pois perceberam ambos que o Outro passava na calçada oposta. Tensos, expectantes, só recobraram a calma ao vê-lo se afastando, sem dar pelos dois. Seguia-os, estaria aprontando alguma?
Ele não demorou a descobrir que sim. Mais que isso, compreendeu que precisavam separar-se, voltar a viver quase como dois estranhos. A simples lembrança desse distanciamento o feria tão fundo que, embora um homem não devesse chorar, tinha de fazer esforço para controlar-se.
Naquele domingo, no entanto, na pequena cantina de Assunção onde se haviam refugiado, ele tentou pôr de lado esses pensamentos sombrios e mostrou-se terno com ela, como se nada os ameaçasse. Ela pediu seu vinho preferido, ele limitou-se a uma coca-cola. Divertiram-se na escolha dos pratos, ele apostou que poderia devorar uma montanha de spaghetti, mas ela protestou, dizendo que se tentasse a mesma loucura teria de amargar uma dieta feroz o resto da semana. Acabaram votando por galeto, o dele bem guarnecido de rascatelli, o dela magro, bem grelhado, de consolação umas folhas de radicci.
Ele a distraiu com histórias inverossímeis sobre um de seus vizinhos, que criava filhotes de onça no apartamento, mas logo concentrou-se por inteiro nela, que começava a falar de sua carreira. Estava se apresentando agora num bar da Cidade Baixa com uns músicos argentinos recém-chegados e fazia algum sucesso com tangos e boleros.
- Tu sabes que não é o meu gênero preferido, mas vai gente importante no bar, vão casais, todos muito bem vestidos. Qualquer dia pinta por lá um empresário e pronto, estou feita. Mas não sei se continuo nessa só de cantora, aquela casa de Ipanema me quer de volta. Lá posso traçar meus sambas, apresentar uns outros números que sei, tudo muito artístico.
- Não é aquela que foi fechada pela polícia?
- Já reabriram. O ambiente agora é seguro, puseram leão-de-chácara e há um sócio novo, cara muito correto. Me prometeram pagar quase o dobro do que ganho no bar. Mas ando indecisa, trabalhar toda a noite é cansativo.
Ele continuou ouvindo-a falar daquele seu mundo a que não tinha acesso e que era onde ela se sentia feliz, fazendo o que realmente gostava. Era pena não poder aparecer, vê-la no palco, aplaudi-la. Ele imaginou-a bela, dominando a platéia com sua voz suave, um dia quem sabe sendo convidada para gravar um disco, aparecer numa revista.
Ela se interrompeu, súbita:
- Ei, só eu que falo hoje? Por que estás tão calado, querido? - disse-lhe, meiga, tomando-lhe as mãos sobre a mesa.
- Tu sabes que adoro quando me contas de ti, da noite.
- Algum dia vais poder me ver, não é mesmo? - volveu ela, sorrindo-lhe com brandura.
Estava tão linda naquele momento, sentia que a amava tanto, que não sabia por onde começar. As horas vinham correndo tão perfeitas, era tão visível a alegria dela por tê-lo ali, que não se animava a dar-lhe as más notícias que trazia. Algo em seu semblante traiu-o, no entanto, pois ela voltou a observar:
- Estás sério demais. Alguma coisa te preocupa, meu bem?
Não podia mais adiar a revelação. Ele aprumou-se na cadeira e com toda a coragem de seus 11 anos disse:
- Nos descobriram. Agora é para valer. Hoje foi por milagre que pude escapar até aqui. Papai esteve no Fórum, me mostrou um papel. Não posso mais te ver a sós, mamãe.
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