MODO DE USAR

in TRATADO DAS TENTAÇÕES
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA

É um produto frágil, cujo correto uso requer especiais cautelas. E como raramente pode ser reposto, fundamental é saber conservá-lo.

Assim, não agite demasiado o conteúdo, nem o deixe dissolver na boca. E não o friccione, a não ser, é claro, em último caso.

As modernas correntes da medicina recomendam mantê-lo longe da fumaça e dos vapores de álcool. Não convém também, segundo alertam, expô-lo a gorduras ou a prolongado imobilismo.

São ponderações sensatas, reconheço; mas, mesmo não sendo médico, desenvolvi minhas próprias teorias quanto a melhor preservá-lo.

O essencial é tê-lo aquecido em ternas emoções, sem jamais rebaixá-lo à frieza de sentimentos menores.

Pois de extensas pesquisas concluí que dura mais quando envolto em amizade e em carinho. E sua longevidade aumenta enquanto imerso em amor. Ciúme no geral não lhe faz bem. Ceder ao rancor é reduzir-lhe a vida. Sucumbir à ira é destruí-lo.

E tanto empenho tenho posto em seu estudo, que lhe descobri pólos de luz e de sombra.

Em luz se acende no contato com ambientes harmoniosos. Ilumina-se ligado no afeto e na partilha. Chega a brilhar, conectado com a alegria. E resplandece se invadido de felicidade.

Mas opaco se faz se o misturam com a inveja, com a mesquinhez, com a mentira. Mergulha em obscuridade se reduzido ao conformismo, ao medo, à covardia. E entra no mais tenebroso dos eclipses se submetido à violência e ao ódio.

Se é de bom uso sujeitá-lo à paixão? Isso depende. A paixão pelo poder, pela riqueza, pela fama, a qualquer custo, lhe confere uma desgraciosa tonalidade cinza. A paixão por uma causa, por uma bandeira, por uma luta pode emprestar-lhe tanto o traço rubro da coragem quanto a ausência de cor da cegueira. Mas se a paixão viceja num romance, e nele encontra prazenteira sintonia, torna-se azul, por vezes de um azul profundo e inimitável.

Não lhe senta o egoísmo, nem lhe quadra bem a ambição.

Mas se o egoísmo nada mais for que auto-estima, essa saudável, dosada vaidade, esse natural orgulho de nos aceitarmos pelo que somos e não pelo que querem nos vender, não lhe causará dano algum.

E se a ambição for dessas que dão um norte à vida, dessas que a preenchem de significado, que atendem ao apelo íntimo de uma inclinação legítima, mal nenhum lhe advirá.

Aconselhável é afastá-lo de vãs angústias, companhia inseparável da repressão e da culpa. E deixá-lo ao largo das auras negativas, de todos os que se comprazem em transmitir mágoas, aflições, tristezas, com essa gratuita compulsão de quem se imagina inquilino de um vale de lágrimas.

Mister é aproximá-lo das mentes positivas, das inteligências abertas, do sopro do talento. E igualmente dos que não abrigam a malícia, não hospedam o cálculo, não dão guarida a terceiras intenções. E ainda dos puros, dos que contemplam a vida com olhos de menino, dos que se maravilham com o simples ato de existir.

Muito mais me restaria a dizer a seu respeito, eu que tão fundo me entreguei à sua ciência. Mas longa já me vai esta bula. Razão bastante para resumi-la à brevidade de uma frase:

Use bem seu coração.


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