TRAVESSIA DAS IDADES

in A COMPANHIA DA SOLIDÃO
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA

Gosto dessas ruas tranqüilas e arborizadas que ainda resistem na Azenha. Admiro suas casas antigas, que se aconchegam umas às outras. Algumas são dotadas de pequenos jardins, outras trazem no alto da fachada o ano da construção, quase sempre de mil novecentos e pouquíssimos. De todas me vem uma impressão de tempo aprisionado - ao passar por uma delas ouvi certa vez, sobranceira ao contraponto da estática de um velho elepê, a ressuscitada voz de Francisco Alves.

A outra semana, ao estacionar diante da que talvez é a menor de todas, em sua despojada simplicidade de porta e janela, percebi que era o privilegiado espectador de um momento de ternura. Recém-saídos à calçada, uma mãe muito jovem procurava ensinar o filho de uns três anos a dirigir um triciclo. A mãe vestia pobremente; não eram melhores as roupas do menino. Quanto ao triciclo, notava-se que era dono de vasta quilometragem pelos passeios do mundo. Nem mãe nem filho mostravam-se preocupados com esses detalhes desimportantes.

Com infinita dedicação, a mãe indicava ao garoto o modo certo de colocar os pés nos pedais sem perder as minúsculas sandálias de dedo, o jeito apropriado de segurar o guidom, a maneira de desviar-se dos buracos e do imenso cão amarelo da vizinha, que ocupava meia pista com um sono de boêmio. Foi um curso brevíssimo: em um minuto o menino revelava insuspeitada vocação para a Fórmula-1, alcançava a esquina e dava meia-volta, tornava em direção à mãe, que o aplaudia sorridente e o presenteava com beijos. E houve um instante em que o menino travou, riu do susto que tinha pregado num tico-tico distraído e disse:

- Mãe, como é bom ser criança.

A frase lhe valeu um abraço apertado.

Eu por mim teria ficado ali o resto do dia. Ocorre no entanto que sou um animal urbano cronometrado e precisei deixá-los. No caminho rumo à intoxicação diária de letras de fôrma, fiquei pensando que algum dia aquele menino vai crescer, vai morar em avenidas ruidosas e sem árvores, vai perder seu riso e o brilho do seu olhar, conhecerá a aflição, a ansiedade, o medo, será um animal urbano cronometrado, feito eu, feito todos nós.
E desejei que no dia mais terrível de sua vida, no dia em que se surpreendesse desertado de esperança, ferido de solidão, inseguro como um pássaro assustado, ele pudesse se lembrar daquela tarde, de sua mãe tão jovem, da casa de porta e janela que era a menor da rua, do imenso cão amarelo e boêmio da vizinha; que ele pudesse reviver sua primeira lição de triciclo, recordar a frase que havia dito sobre como é bom ser criança. E então uma súbita paz se aninharia em seu peito e já nada lhe pareceria adverso ou triste.

Pois toda a história humana é a busca de algo que fomos perdendo ao acaso da travessia das idades. A busca de algo que nos livros de história de nossa infância atendia por felicidade.

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