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Elegia urbana Rádios.
Tevês.
(Mario Quintana, Apontamentos de história sobrenatural)
O domingo amanhece abanando a cauda, faceiro. O Grêmio vai jogar, e é favorito. A manhã é desfrutada em meio a rezas, laranjas ao sol, e expectativas. O almoço é pretexto para conversas, e depois discussões, conforme os copos que os adultos bebem. Logo depois, a sesta rói os ossos de quem dorme, enquanto as crianças brincam: garotas para um lado, meninos para outro. À meia-tarde, ligam o rádio e a tevê. A tevê que é para as mulheres - mostra o apresentador quase centenário, em seu imutável sorriso, brincando com as fãs. A voz dele chega um segundo depois da imagem. Há algo de incoerente, uma espécie de mentira. O jogo começa, sabemos pelo rádio - que é dos homens. Aos quinze minutos, o narrador grita: goooooooooool! Não é do Grêmio. Sofremos, mas, faltando ainda muito tempo para o final, confiamos em Deus. O animador televisivo insiste na pergunta: quem quer dinheiro? quem quer melancia? No rádio, um goooooooooooooooooooooool imenso. Empatamos. Somos os maiores, temos sangue azul e alma castelhana. O animador: quem vai para o trono? No campo, o inimigo avança. Nosso zagueiro comete falta: pênalti! Essa não, juiz ladrão!, repetimos, em coro com o estádio. Mas, quem sabe nosso goleiro defenda: é um pegador de pênaltis. Gooool. Encolhe-se a esperança. É uma folha de papel. Desaparece nas sombras da noite. Se o Grêmio tivesse vencido, o gato deitaria em meu colo, altaneiro deus dos triunfantes; como perdemos, o domingo esconde-se embaixo da cama. Cão de rabo entre as pernas. A vitória fica para a semana que vem. por
Valesca de Assis, especial
para exposição realizada no Centro Cultural CEEE Erico
Veríssimo, em julho-agosto/ 2006 Paixão por Futebol: um amor às avessas por Valesca de Assis, publicado no ClicRBS dentro da série Paixão pelo Futebol Desde o sábado em que fui madrinha do time da quarta série, em minha escola primária, apaixonei-me por futebol. Primeiro, pelo esporte em si, os guris correndo para lá e para cá, disputando com vigor e até deixando-se ferir - sem chorar – em torno de uma bola. Logo em seguida, apaixonei-me pelo Grêmio. Depois disso, meus finais de semana passaram a ter um sentido e uma rotina: cumprir, o mais cedo e rápido os deveres escolares e as tarefas de menina da casa, para, no meu radinho azul, de baquelite, acompanhar os jogos dos aspirantes, dos reservas, e, por fim, dos titulares. A maratona iniciava no sábado após o almoço e terminava domingo à noite. E eu ouvia tudo: as entrevistas de antes e depois, os comentários, as reclamações dos torcedores e as desculpas dos dirigentes. Ainda hoje sou capaz de apreciar qualquer partida de futebol, desde a mais varzeana até os jogos da Seleção. Incomodam-me aquelas pessoas que torcem apenas na Copa do Mundo ou na Libertadores. Ou em Tóquio. Mais do que ver, gosto de ouvir os jogos; mesmo que passem na TV, ainda assim os ouço no rádio: agrada-me a empolgação dos narradores, o ritmo que impõem ao embate, não raro maior e melhor do que o próprio. Ao contrário de muitas mulheres que conheço, a mim, a narração escandida e vibrante não provoca dor-de-cabeça. Com o passar dos anos, desenvolvi hábitos, e, por que não dizer, manias decorrentes desta paixão antiga: todos os anos, escolho um dia para ir à Feira do Livro com a camiseta do Grêmio. Quando viajo, também saio fardada algumas vezes. E a gloriosa camiseta tricolor já andou por ruínas pré-históricas, por terras ancestrais, por gloriosas cidades modernas. Foi muito reconhecida, lá fora. Sem esforço, mantenho-me razoavelmente informada sobre meu esporte preferido: sei quem joga, quando joga, onde, quem deve ganhar ou perder, enfim tenho a visão de cada rodada e de suas circunstâncias. Ora, que homem amoroso não seria feliz em tão raro compartilhamento de interesses? Qualquer um. Quem não adoraria poder jogar todas as quintas à noite sem levar bronca da mulher? Nenhum. Quem não gostaria de ir a todos os jogos do seu time, mesmo sonegando domingos à família, e a família nem reclamando, talvez indo junto? Pois, gente, com todas essas raras virtudes, não é que fui casar com um homem para quem o futebol nada significa e os únicos nomes famosos que consegue lembrar são Vavá e Bodinho? Como podem imaginar, foi uma espécie de anticlímax e, no início, tivemos alguns atritos a respeito; depois, acomodamos nossas divergências: eu, ouvindo as narrações com fones nos ouvidos; ele, evitando passar-me telefonemas e preocupações nos sagrados noventa minutos. E, para que meu marido não pareça alienado - ele, com tantas outras qualidades - às segundas e quintas pela manhã informo-o sobre aquele mínimo que um homem precisa saber de futebol para não desafinar, na hora do cafezinho, frente aos colegas de trabalho. |